15.12.10

Dilemas do Frevo: reinvenção da cultura ou passos cada vez "mais lentos"?



Multidões no quente reboliço das ruas e dos salões de baile nos dias de Momo. Essa é a cara do ritmo que mais representa o povo pernambucano: o Frevo. No auge dos seus 103 anos, o Frevo não tem mais o mesmo fôlego de antigos Carnavais. As rádios, grandes responsáveis pela difusão do ritmo no Estado, já não dão tanto valor aos sons da terra. É o que comenta o historiador e pesquisador da Casa do Carnaval do Recife, Mário Ribeiro. “Na década de 30, a Rádio Clube teve uma atuação muito forte na massificação do Frevo. Neste período, a rádio tinha uma programação especial de Carnaval com programas focados no Frevo. Os discos com as músicas do Carnaval eram fabricados em setembro e em fevereiro, graças às rádios, já estavam na boca e no pé dos foliões pernambucanos”, destacou.

Há anos que as emissoras só tocam frevos no período carnavalesco. Os poucos discos que são lançados não têm divulgação nem execução no rádio e TV, ou seja, não chegam ao povo. O Frevo foi perdendo espaço para a “música da moda”. De acordo com Mário, um dos problemas enfrentados pelo Frevo é a dificuldade de ser tocado e ensinado. “Trata-se de uma música que exige conhecimentos técnicos de arranjos e orquestração muito complexos. Praticamente inexistem no mercado livros com partituras de frevo. No próprio curso de Música da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) os alunos não saem sabendo tocar o Frevo devido a complexidade do ritmo”, comenta o historiador.

As tradicionais orquestras de Frevo espalhadas pelas periferias exercem esse papel de ensinar a tocar a música. “Têm orquestras espalhadas pela cidade com mais de 40 anos. É uma pena que elas só apareçam no período carnavalesco em virtude de uma série de fatores como a falta de investimento e a própria falta de valorização vinda de empresas e patrocinadores”, diz Mário. Um exemplo dessas orquestras da periferia é a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério: comandada pelo Maestro Forró, a banda é um exemplo da superação e da reinvenção do Frevo.
De acordo com a jornalista professora de Antropologia da Faculdade Maurício de Nassau, Raquel Rodrigues, o Frevo encontra-se em um processo de resignificação, o que é normal acontecer com elementos culturais com o passar do tempo. “Nomes como Spok e Forró dão outra significação ao Frevo, mantendo aquilo que é a base rítmica. Esse é um processo extremamente natural de atualização de traços culturais”.

Raquel lembra que, após o centenário do Frevo, houve uma tendência a querer que seja um ritmo cotidianamente tocado pelas rádios. “Eu concordo com esse sentimento de preservação, no entanto, acho que esse deve ser um movimento natural, não necessariamente com controles legais para garantir essa preservação. É preciso que seja realizado um trabalho de consciência partindo do Governo do Estado e das pessoas que fazem música em Pernambuco, que precisam se sentir responsáveis em contribuir com esse patrimônio de uma riqueza rítmica incomparável para a cultura do Brasil”, afirma a jornalista.

Seja na ferveção do frevo-de-rua, na nostalgia do frevo-de-bloco ou nas belas composições do frevo-canção, o Frevo pernambucano ainda tem fôlego para celebrar outros centenários, basta que todos os cidadãos tenham o sentimento de preservar e recriar a sua cultura. O pernambucano precisa orgulhar-se de ter um ritmo e uma dança que nenhuma outra terra tem, criada pelo próprio povo, uma mistura que, como diria Capiba, “entra na cabeça, depois toma o corpo e acaba no pé”.

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