6.12.10

Confira entrevista pingue-pongue com Maestro Spok



“A importância do frevo para mim é que ele é o maior registro da alma do meu povo, da minha alma, e eu não tenho interesse nenhum em perdê-lo.”  Maestro Spok

Inaldo Cavalcante de Albuquerque é natural de Igarassu, iniciou seus estudos musicais em Abreu e Lima com o professor Policarpo Lira Filho (Maninho) em 1984. Em 1986 veio para o Recife, e passou a trabalhar com grandes nomes da música pernambucana como: Maestro Ademir Araújo, Maestro Clóvis Pereira e Maestro Guedes Peixotos. É considerado um grande percussor do Frevo fora do País e já levou o nosso ritmo para quase todo canto do mundo. Maestro Spok nos fala sobre como o frevo entrou na sua vida, seus projetos e visões sobre o desenvolvimento que a nossa cultura vem ganhando e dentro e fora do Brasil.

1.Como o frevo entrou na sua vida?

O meu tio tocava saxofone e organizava uma orquestra em Abreu e Lima. Meu pai era boêmio, amante da musica, das poesias populares e também do frevo e eu cresci ouvindo Capiba, Nelson Ferreira, Claudionor Germano e outros mestres. Na adolescência, em 1983, eu comecei a estudar música. Daí em diante me apaixonei pela música, pelo instrumento (o saxofone). Depois passei a estudar em Recife, no centro de profissionalizante de criatividade musical do Recife e foi onde tive contato com os mestres do frevo: Maestro Duda, Menezes, Clóvis, Guedes entre outros. Em 1996, formei com alguns amigos a "Banda Pernambucana" e passamos a acompanhar o artista Antonio Nóbrega pelo Brasil e pelo mundo. Em seguida a banda passou a ser conhecida como "Orquestra de Frevo do Recife" e que neste ano (2004) já como "Spokfrevo Orquestra" lançamos nosso primeiro CD solo intitulado "Passo de Anjo". Durante todo esse tempo passei a conviver e ter a sorte de poder tocar com todos e graças a eles estou hoje com a orquestra a qual conseguimos realizar vários eventos.

2.No começo da carreira, o que você tocava nos shows?
O meu repertório era o da maioria das pessoas que faziam e fazem bailes. Tocávamos os clássicos, os sucessos de Capiba, Nelson Ferreira, Claudionor Germano... Na verdade era uma banda “cover” e esses sucessos continuam sendo tocados até hoje nas festas.

Quando e de que forma surgiu o primeiro convite para se apresentar fora do Brasil?
As primeiras viagens para o exterior só foram possíveis através de um trabalho que fizemos. Só tocávamos frevo quatro dias por ano, daí tínhamos que esperar mais um ano para que chegasse o Carnaval. Então surgiu essa idéia de fazer um CD onde o frevo, a música instrumental, sem cantor, sem passista, fosse trabalhada de uma forma mais cuidadosa, coisa que na rua não é muito possível, pois as pessoas estão ali pra dançar. Ninguém vai prestar atenção no músico ou no que ele faz e eu queria fazer uma música em que as pessoas fizessem silêncio e parassem para ouvir. Criamos esse disco o “Passo de anjo” e com ele conseguimos trabalhar o ano inteiro com o frevo não só nos quatro dias de Carnaval.

3.O que falta para que haja uma maior divulgação dos frevos novos aqui no Estado?

Existe o frevo de bloco, o frevo canção e o frevo de rua. Esse último, o frevo de rua é o instrumental, ele não tem letra e é o que nos da orquestra tocamos. Eu posso dizer que esse vem sendo bem cuidado, bem divulgado. Os frevos cantados são os que sofrem mais com essa falta de divulgação, mas é muito complicado falar nesse assunto, nessa questão de obrigar as rádios a tocarem as músicas ao mesmo tempo eu também concordo e luto para que se der uma atenção maior ao nosso frevo.

4.Desde o começo da sua carreira, até agora, quais as mudanças que você tem observado em relação ao interesse das pessoas sobre a nossa cultura?

Cada vez mais as crianças, os jovens estão interessados em conhecer a sua cultura. Esse seu trabalho é um exemplo. Isso só está acontecendo por causa de um trabalho sério que envolve várias pessoas, não só o meu, mais o de muitas pessoas. É muito importante quando temos a atitude de conhecer nossa história, nossa cultura. Isso serve não só para o presente, mas para que no futuro nossos filhos e netos tenham oportunidade e curiosidade de saber mais sobre suas raízes culturais.

5.O que você acha das iniciativas do governo para a preservação cultural?

Eu noto que os últimos governantes e as pessoas que decidem sobre a cultura estão cada vez mais interessados nessa preservação. É um trabalho grande que envolve muita gente, e eu vejo que o governo esta disposto a continuar desenvolvendo isso. Lógico que sempre é possível fazer mais e aos poucos se todos estiverem juntos melhoraremos isso.

6. Sabemos que aqui em Pernambuco só escutamos frevo durante os quatro dias de folia. O que você acha do frevo só tocar durante o carnaval?

É, realmente, a gente toca mais durante o ano fora de Pernambuco do que em Pernambuco. É um trabalho a longo prazo. Eu acredito muito que quem vier depois de nós irá tocar muito mais frevo aqui no Estado, mas fico muito feliz em poder estar contribuindo para essa futura geração e cabe a gente continuar trabalhando pra isso. Não é fácil você chegar e dizer: “A partir de hoje o frevo será tocado o ano todo.” Há muita coisa por trás disso, mas vamos chegar lá, o importante é que já começamos e os resultados virão.

7.O que podemos esperar do futuro do frevo?

Tem muita gente fazendo um ótimo trabalho, como a Orquestra contemporânea de Olinda, a Orquestra da bomba do Heméterio, com o Maestro Forró, os mestres que ainda continuam trabalhando. Podemos esperar que isso continue sendo feito com seriedade e dignidade para que não acabe. Está aí o “Paço do Frevo” que é uma proposta nova e de grande importância para a valorização da cultura. Ano que vem lançaremos o nosso instituto, “Passo de anjo”, uma escola de arte onde vamos trabalhar com a música, dança, canto, entre outras coisas. Estamos concluindo também um documentário que se chama “Mestres do frevo”, contando a vida e a obra de sete mestres vivos. Tudo isso contribui para o futuro, assim como também o fato de continuar trabalhando sério e plantando bons frutos.

8. Qual a importância do frevo para a cultura pernambucana?

A importância que o frevo tem para a cultura pernambucana é a mesma importância que o tango tem para Argentina, que o fado tem para Portugal. É o que nós temos de sagrado, de real. O frevo nasceu em Pernambuco e tem a mesma importância que o maracatu, que o caboclinho... Se você quer ser ouvido fale a língua do seu local. Eu nasci aqui e tenho propriedade para fazer essa música do mesmo jeito que um indiano tem para fazer músicas dele. Então a importância do frevo pra mim é que ela é o maior registro da alma do meu povo, da minha alma, e eu não tenho interesse nenhum em perdê-lo.

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